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Por Andressa Camargo, Cláudia Lamego, Luciana Gondim e Olívia Bandeira de Melo
Já faz algum tempo que nós, então quatro estudantes de Jornalismo e hoje jornalistas formadas, pegamos um ônibus da linha Niterói-São Paulo, em busca daquela que é atualmente, a nosso ver, a mais bem-sucedida experiência de mídia impressa alternativa no Brasil. Naquela madrugada, o que tínhamos em mente era verificar como a revista Caros Amigos não somente sobrevive, mas ganha um respeito crescente e um número cada vez maior de leitores.
O que não foi novidade para nós é que este sucesso (tomando como sucesso um reconhecimento público e não a independência financeira, pois, neste sentido, a receita realmente desandou; basta observar o escasso número de anunciantes) é fruto da qualidade, da experiência e da diversidade de seus colaboradores, de um projeto gráfico inovador e, sobretudo, da demanda da sociedade por um veículo que apresente o Brasil e o mundo sob outra ótica que não a da mídia dominante.
Qualidade essa comprovada por números: 18 mil assinantes em abril de 2002 (5° aniversário), trinta e seis vezes mais do que os 500 assinantes do primeiro ano de circulação, e uma tiragem total de 57 mil exemplares. Sem falar nos prêmios recebidos neste e no ano passado: a Medalha Chico Mendes de Resistência do Tortura Nunca Mais – RJ, o certificado do iBest para o site da revista, Melhor Projeto Especial do ano para a edição especial Literatura Marginal, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), e dois dos quatro prêmios Wladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, na categoria imprensa escrita, para João de Barros (reportagem) e Jorge Arbach (arte).
Voltamos de lá, no entardecer seguinte, com a certeza, em primeiro lugar, de que a revista é fruto do esforço conjunto de pessoas que acreditam que possa surgir uma imprensa de esquerda no Brasil, particularmente neste momento em que o mundo começa a se manifestar contra a globalização excludente — fato comprovado pelas urnas, que colocaram Lula na Presidência do Brasil e Lucio Gutiérrez na do Equador. Em segundo lugar, com uma esperança, apesar das dificuldades, no nosso país e na imprensa brasileira. Em terceiro, sabendo que, apesar de sua importância, a Caros Amigos possui suas limitações, como a falta de repórteres, e que uma revista mensal não é suficiente para podermos dizer: existe um jornalismo alternativo.
Por último, temos a satisfação de poder compartilhar virtualmente - apesar da demora e dos inúmeros obstáculos que nós próprios enfrentamos e que impediram que conseguíssemos imprimir mais um número do CAROÇO, publicação que desenvolvíamos na Universidade Federal Fluminense – os ingredientes que fomos buscar na sede da Casa Amarela. Uma receita que leva a assinatura, entre outros, destes que nos falam aqui: Sérgio de Souza, editor, Marina Amaral, editora executiva, José Arbex Jr., editor especial, e Wagner Nabuco de Araújo, diretor comercial.
Bom apetite!
Ingredientes:
PAPEL
José Arbex Jr.: Um tema estrategicamente importante é o papel. Sobram matérias em todas as edições. Lamentamos, porque só de e-mail que recebemos podíamos dar quatro páginas por edição. Mas, se aumentamos em dez páginas a revista, temos que aumentar, sei lá, em um real seu preço (hoje, de R$ 6,00). E os leitores vão poder comprar a revista, mais cara? Preferimos não arriscar.
EQUIPE
Caroço: Vocês vivem só da Caros Amigos?
Arbex: Não, minha principal atividade jornalística hoje é a Caros Amigos, mas a principal fonte de renda não é. Atualmente, dou aulas na PUC-SP e na Casper Líbero, escrevo livros, tenho um jornal de política externa (Mundo - geografia e política internacional). Não me queixo da falta de grana, ganho mais do que preciso e muito menos do que mereço.
Marina Amaral: Minha situação é diferente. Eu, o Sérgio (de Souza) e o Wagner (Nabuco) somos sócios na editora. A gente tira o pro labore da revista. O Arbex já é um caso de sacrifício maior, porque ele é nosso editor especial. Não tem como pagar um salário para ele.
Arbex: O Wagner é, ao mesmo tempo, diretor de finanças, propaganda e marketing, cuida do departamento de pessoal, de recursos humanos (risos). A Marina e o Serjão (Sérgio de Souza) – o corpo permanente da redação - fecham a revista.
C: Vocês vivem na corda bamba?
Marina: Bamba não, mas sempre na mesma vibração.
Arbex: O mais importante é notar que as pessoas estão aqui não porque não encontraram lugar no mercado; é uma opção. O Serjão levou a Realidade a ser a principal revista do Brasil nos anos 60, deu a ela uma grande ousadia jornalística, uma qualidade sem paralelo na história do jornalismo brasileiro. O Wagner já recebeu prêmio de melhor diretor de vendas da Editora Abril. A Marina tem “trocentos” anos de jornalismo!
COLABORADORES
C: Os colaboradores, que formam a maior parte da revista, têm autonomia para escrever?
Sérgio de Souza: Têm. Qualquer pessoa que quiser mandar artigo, coluna sobre qualquer assunto, pode mandar. Se der para publicar, a gente publica.
C: A colaboração é voluntária?
Sérgio: Aos que estão a perigo, a gente paga. Já aqueles que não dependem de um artigo para sobreviver, vamos colocando numa conta.
EXPERIÊNCIA
C: As pessoas que estão aqui têm uma carreira, um nome. E os que estão começando agora, têm que passar pela grande imprensa?
Marina: Acho interessante, para qualquer repórter iniciante, a experiência de trabalhar num grande jornal diário. Ver as relações de poder, como a coisa é engendrada, e, claro, ficar conhecido.
Arbex: Tudo bem. Mas, hoje, esse não é um caminho necessário. Se você for competente, torna-se conhecido, sim. Quando saí da Folha de S. Paulo (onde trabalhou de 1983 a 1992), foi um pesadelo. Onde eu teria um banco de dados daquele à minha disposição? Não havia Internet. Hoje, há muito mais recursos tecnológicos. Existem “n” mais uma opções: Internet, jornais de bairro, de associações, publicações temáticas, etc.
C: Mas você, Arbex, certamente trouxe alguma experiência positiva da grande imprensa.
Arbex: Sim: o cenário que vivi, de transformação mundial. Fui correspondente em Nova York, em Moscou, vi a queda do Muro de Berlim, cobri várias guerras. Sem fazer concessão nenhuma a ninguém. Quando estava em Moscou, era um dos mais lidos, por isso não me demitiram.
FÔRMA
C: Por que a decisão de sair da Folha?
Arbex: A Folha implantou o Manual de Redação em 1984, as redações começaram a ficar mais uniformes, a liberdade de pensamento e de criação dentro do jornal foi se restringindo. O jornal também foi se industrializando, porque o computador exerce uma tirania industrial na produção de textos, minimiza o papel do jornal, no sentido clássico do termo, de promover debate, pluralismo de idéias, interlocução. Eu tinha 33 anos, já ganhava o que, hoje, corresponderia a cerca de 15 mil reais por mês. Mas achei que tinha esgotado minha experiência nesse tipo de jornalismo.
C: Ainda pro Arbex: como você vê a nova geração de jornalistas, em meio a esse processo de industrialização dos jornais?
Arbex: A geração de vocês é terrível, extremamente conservadora e sem preparação intelectual. Quando fui dar palestra na faculdade de vocês, perguntei: quem leu Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector? Ninguém. Como é que você quer ser jornalista se nunca leu os autores nacionais, se não conhece a história do país?
C: Espera aí! Quem disse que a gente não leu Drummond, Clarice, Guimarães Rosa?
Arbex: Meia dúzia leu.
C: Mas você tem que considerar que a maioria dos leitores da Caros Amigos é de jovens.
Arbex: De um milhão de universitários brasileiros, 15 mil lêem a Caros Amigos.
C: Você vê diferença entre alunos da universidade pública e da privada?
Arbex: São todos vagabundos, preguiçosos. Você estuda em universidade pública, quem paga? O povo, então a sua obrigação tem que ser para com o povo. Mas a universidade brasileira forma a elite, que serve à elite. Agora, como você vai servir ao povo se não sabe a história do seu país, não lê a literatura de seu país, não se mete na política do seu país?
C: Você fala da nossa geração, mas e a sua, também não era constituída de exceções?
Arbex: Também. Eu me referi à geração de vocês por acaso, falo de classes sociais.
PÚBLICO
C: Vocês sabem o perfil dos leitores?
Arbex: A partir das palestras que dou, podemos deduzir que os leitores são estudantes universitários voltados para a produção intelectual, muitos sindicalistas e profissionais liberais. Recebemos uma carta de um vendedor de salsichas que deixa de almoçar um dia para comprar a revista. Conquistamos pessoas da classe social operária. Gente sem grana, que precisa se sacrificar para comprar a revista.
C: Existem muitos militantes?
Arbex: Não.
C: Você falou que existe muito sindicalista...
Arbex: Muito sindicalista, pai de família, empregado. Não necessariamente militante. A revista tem uma linha bem independente. Não se identifica com nenhum partido.
IDEOLOGIA
C: Muita gente acredita que existe uma identificação da revista com o PT.
Arbex: Mas é porque o PT é o que existe de esquerda no Brasil. O PT e o MST.
C: Então você considera a Caros Amigos uma revista de esquerda?
Arbex: (gargalha) Acho que sim, mas o termo “esquerda” ficou pejorativo, e evito usá-lo para não dar uma conotação de esquerdista. Não é esquerdista, pois não tem receita pronta para todos os males do Brasil. O que marca a revista é a independência, o pluralismo.
C: A revista mudou muito do primeiro ano para cá?
Arbex: Ela está se tornando cada vez mais politizada. Os leitores vêm exigindo isso.
SONHO
C: Como nasceu o sonho da Caros Amigos?
Wagner Nabuco: A idéia da revista surgiu da necessidade que sentimos de ter uma voz que destoasse do discurso da grande mídia, que discutisse a globalização. Por outro lado, pensando pelo lado técnico, achávamos que tinha que haver alguma coisa mais jornalística. Porque, há quatro anos, quando a revista surgiu, o que se dizia é que as pessoas estavam parando de ler, que, na sociedade da imagética, o lance era fazer textos curtos, com muitas fotos, ilustrações e infográficos. Influências, no jornal, da escola do U.S. Today, americano, e, do lado da revista, o sucesso da Focus alemã e da influência da Escola de Navarra. Nós, ao contrário, fizemos uma revista que revaloriza o texto, porque há muitos leitores que querem ler coisas inteligentes, que os façam pensar criticamente o país.
Queremos fazer a revista crescer. Por que não ter uma editora que não seja de direita no país? É claro que não vamos ter ajuda do BNDES, etc., mas vamos tentar, temos esse sonho. John Lennon disse que o sonho acabou. Mas eu acho que não: um sonho sonhado por muitos vira realidade.
C: O que te motiva?
Nabuco: Isso, mais o sonho de fazer um país melhor.
Modo de preparo:
PAUTA
C: Vocês fazem reunião de pauta?
Sérgio: Só para as reportagens. Sendo que mais de um terço da revista é de sessões fixas, como a “Enfermaria”, o “Ensaio Fotográfico”, as “Janelas Abertas”.
Marina: No primeiro número, a proposta foi que as pessoas escrevessem sobre algo que estivessem achando muito legal ou muito ruim. Era só isso a pauta. E a nossa união se deu em função de não estarmos satisfeitos com essa coisa homogênea que está em toda a mídia. Era uma voz discordante que buscava provocar reflexão.
C: Quem escolhe os entrevistados?
Arbex: Recebemos sugestões. Há meses faço campanha para uma entrevistada, a Lélia Abramo. Mas aí vamos adiando porque surge sempre um assunto mais quente.
Marina: Muitos entrevistados nos procuram. Raramente entrevistamos uma pessoa para encostá-la na parede, como um Maluf, que queremos detonar. Damos voz a quem nunca teve voz na grande imprensa. O tipo da entrevista é cutucar para fazer a pessoa falar.
C: Por que vocês escolheram a Suzana Werner para a capa de uma das revistas quando na verdade a matéria falava do Ronaldinho (Caros Amigos n.º 17, agosto de 1998)?
Marina: Estávamos fazendo várias experiências de capa. Nem sempre o entrevistado estava na capa, como acontece hoje. A decisão foi do Serjão. Serjão, por que ela na capa?
Sérgio: A gente estava conversando num bar, eu, Pará, o Arbex...
Arbex: Me inclua fora dessa! (risos). Ainda mais que o entrevistado era o Milton Santos.
Sérgio: O Pará, que é um diretor de arte, sugeriu: “Vamos colocar uma mulher bonita na capa, dar uma mexida”. E coincidiu de naquele mês estarmos fazendo uma matéria sobre o Ronaldinho.
C: Vendeu mais?
Sérgio: Vendeu bem.
C: A reportagem sobre o filho bastardo do FHC (“Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo”, n.º 37, abril de 2000) não foi sensacionalismo?
Arbex: O Pelé tem filho fora do casamento, isso gera uma puta notícia. O Lula e o Maluf idem. Por que o fato do FH ter um filho fora do casamento não virou notícia? Um deputado me ligou para fazer uma ameaça, dizendo que tinha gente em Brasília descontente com a apuração. Publicamos essa pressão. A matéria não foi sobre o filho do FHC, mas sobre os bastidores da notícia.
Marina: Essa matéria é transparente. Tudo o que chegou às nossas mãos foi publicado. O problema não é o presidente ter um filho, mas saber até que ponto a Globo tem ligação com o Planalto. Saber o porquê deles terem mandado a jornalista para a Europa. Quando apareceu a filha do Lula, O Globo fez um editorial intitulado “O direito de saber”, defendendo que o caso dele com a Míriam devia ser público. Já o do FHC, alegam que é privado.
Arbex: Só tem vida privada quem pode pagar por ela. Quando morreu a Lady Di, fui convidado para debates, na TV Cultura e na Globo News, sobre se era legítimo ou não os paparazzi ficarem atrás dela. Quando ela casou, teve filho, corneou o marido, se separou, convocou a imprensa. Aí, quando a imprensa vai, acha ruim! Quando a imprensa invade um barraco da favela porque o filho de uma mulher morreu assassinado por narcotraficante, metem câmera na cara dela e perguntam: “O que a senhora acha do assassinato do seu filho?”. Aí é jornalismo verdade! Quando uma prostituta de luxo, que sempre convocava a imprensa, morre, é invasão de privacidade.
CAPTAÇÃO DE RECURSOS
C: A revista vive de quê?
Arbex: Assinatura e venda. A publicidade pouca que temos é de prefeituras, em geral, de esquerda.
C: Vocês fazem seleção de anunciantes ou não tem quem anuncie mesmo?
Arbex: Não tem mesmo. Depois da capa do “bastardinho”, temos a informação de que houve uma retração ainda maior das agências, por não quererem botar anúncios e desagradar o chefe.
PUBLICIDADE
Nabuco: Nós sabíamos que não conseguiríamos uma grande receita com publicidade. O jeito era montar um projeto que tivesse gastos fixos baixos e que pudesse se manter, basicamente, com a receita de circulação. E estamos conseguindo manter isso, mas com um equilíbrio muito precário. Dependemos de outras receitas que a Editora Casa Amarela tem, na área de livros. Prestávamos serviços editoriais, mas infelizmente, perdemos o contrato do banco CCR, quando o HSBC o comprou. Também lançamos fascículos (Rebeldes Brasileiros), edições especiais, edições com reuniões de entrevistas que foram capas de números anteriores. Tudo isso agrega valor para a manutenção do projeto. Além disso, os colaboradores, quando recebem, é simbolicamente. Não teríamos condições, por exemplo, de pagar ao Luiz Fernando Veríssimo, que escreve para a Caros Amigos, o que ele merece e que é o que deve receber no Globo.
DIVULGAÇÃO
C: Como é feita a divulgação da revista?
Nabuco: Fazemos mala direta, temos a promoção de que o assinante que indica um amigo para assinar ganha um presente, captamos pelo telemarketing, um 0800, e temos vendedores espalhados em feiras, universidades, etc.
C: Vocês fazem palestras para divulgar a Caros Amigos?
Arbex: Outro dia fui para Porto Velho, dar palestra para o pessoal que trabalha com bauxita, do MST.
C: Quem é que banca isso? A revista?
Arbex: São as pessoas que nos convidam, não oferecemos. Dei uma palestra em Belo Horizonte com o João Pedro Stédile. Pensávamos que não ia dar em nada, chegamos lá e havia 1.500 pessoas. Acaba sendo uma divulgação da revista, mas o objetivo não é esse. Na palestra que dei na UFF, você pode dizer tudo, menos que tentei ser simpático com alguém. Falo aquilo que acho que tenho que falar. Se o cara gostou ou não, que se foda!
Modo de servir:
DISTRIBUIÇÃO
C: Em que região vocês vendem mais? Como é feita a distribuição?
Arbex: No interior de São Paulo, Nordeste, Bahia. No Rio nós vendemos de duas a três mil revistas. Nós temos que tirar 60 mil exemplares para vender 30 mil. Enviamos 16 mil para as bancas, 11 mil vão para os assinantes e o resto vai para a apara.
Nabuco: Mando 44 mil revistas para as bancas, para vender 20 mil. Não dá para saber qual banca vende e qual não vende, não temos como controlar a distribuição. Inclusive porque, mês a mês, as coisas mudam. Pode chover em uma região num mês e aí ali vai vender menos. Ou, de repente, a capa daquele mês não interessa às pessoas daquela região. Temos 16 mil pontos de venda. Por isso, temos que ter um “estoque estratégico”.
C: Marina, Sérgio e Wagner são os sócios da revista, não são? Vocês investiram dinheiro do próprio bolso para lançar a revista?
Nabuco: No meu caso, sim. Investi o que ganhei quando saí da Editora Abril.
C: De quanto foi o investimento inicial?
Nabuco: 300 mil reais.
C: Você vive só da Caros?
Nabuco: Hoje, sim. Mas claro que, se eu fosse trabalhar em cargo executivo na Folha, no Globo ou na Veja, eu ia ganhar cinco, seis vezes mais.
Enterro dos ossos:
REPERCUSSÃO
C: Não interessa à grande mídia repercutir as matérias de vocês.
Marina: Não. Eu dei uma entrevista numa rádio gaúcha sobre uma matéria que fiz sobre a Petrobrás. Tinha uma denúncia de contratos que, somados, davam 140 milhões de reais em subvenção ao Ministério Público. Procurei a assessoria de imprensa da estatal, ninguém quis falar. Chegou nesse debate, eu falei “ai, ainda bem que o assessor de imprensa da Petrobrás vai falar”. Mas quando ele viu quem estava lá, fingiu que a ligação caiu. A produção da rádio verificou com a Telemar, mas não tinha defeito nenhum no telefone dele.
C: Além dessa tentativa de abafar os casos narrados, vocês recebem algum tipo de ameaça?
Arbex: Esse tipo de coisa é a maior ameaça que a gente pode receber.
Marina: Quando fui fazer a matéria sobre FHC, procurei a assessoria de imprensa dele. Expliquei o que era, tentei falar com ele, em vão. Preferem ignorar a revista. Mas, hoje, não tem quem não a conheça. Publicamos até uma foto do ACM entrando no Congresso com um exemplar na mão.
INTERLOCUTORES
C: A Caros Amigos é a única revista independente, distribuída nacionalmente?
Arbex: De projeção nacional e vendida nacionalmente, acho que sim.
C: O que vocês acham que aconteceu com a Bundas?
Arbex: O Pasquim tinha uma fórmula que era da gozação e era fácil gozar de um general, os caras eram uns idiotas, uns gorilas. Agora, o Fernando Henrique é inteligente, representa a lógica neoliberal, que não é poder militar, não é força bruta. Pode ser a força bruta, quando precisa, mas é também a compra da consciência pelo dinheiro. Ele comprou um amplo setor da classe média, de intelectuais, como o Fiori, da PUC. Ele chamou os intelectuais para o governo. E você não desmonta essa estrutura através da piada. Para se contrapor a esse governo, é preciso um outro discurso, competente como discurso intelectual.
Marina: A Bundas pegou logo de cara uma faixa teenager. Também erraram do ponto de vista comercial, projetaram uma tiragem muito acima da publicidade. E a loucura maior: era se-ma-nal.
C: Nos dois primeiros números não tinha nenhum artigo que não falasse de bunda. Muita gente não sabia que aquilo ali era uma revista de sátira ao governo.
Arbex: A gente até queria ter muitos concorrentes. O pluralismo nos beneficia.
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